
Da Lenda dos Caprinos à Bebida dos Monges
A Etiópia é considerada o berço da planta do café e da cultura do café. E lá há uma lenda de como tudo começou.
De acordo com a Lenda registrada em manuscritos do Iêmen no ano de 575 d.C, o pastor de cabras, Kaldi, percebeu que seus bichinhos ficavam animadíssimos após comer umas frutinhas vermelhas — os grãos do café! Ele experimentou e levou para os monges. Inicialmente receberam como algo diabólico, jogaram no fogo… até que o cheiro os conquistou.
Logo, os monges passaram a usar a bebida para se manter acordados nas longas orações. O povo etíope já consumia o café de várias formas: mastigando folhas, preparando chá, comendo a polpa fresca ou fazendo sucos fermentados.
O Café Cruza o Mar e Conquista o Mundo Árabe
No século XIV, os grãos começaram a ser torrados, revelando o sabor marcante que
conhecemos hoje. A bebida recebeu o nome de kahweh, que em árabe significa “força”. O porto de Moca, no Iêmen, se tornou o principal centro comercial do café.
Nasciam também as primeiras cafeterias: a mais antiga, o Kiva Han, foi inaugurada em 1475 em Constantinopla. Conhecidos como kaveh kanes, esses espaços eram muito mais que locais de bebida — viraram salões de ideias. Poetas, artistas e filósofos se reuniam em torno das xícaras fumegantes para conversar, pensar e criar. Não demorou para o café virar assunto de religião e até de lei: na Turquia, uma esposa podia pedir divórcio se o marido não levasse café para casa.


A Paixão Europeia pelo “Licor Oriental”
No século XVII, o café desembarcou na Europa. A primeira parada foi Veneza, em 1615, e de lá conquistou o coração dos ingleses. Em 1650, Oxford ganhou seu primeiro café, seguido por Londres. Rapidamente, as cafeterias viraram locais de encontro para mercadores, políticos e intelectuais.
Na França, o café chegou com pompa e circunstância: em 1699, o embaixador turco presenteou a corte de Luís XIV com grãos raros e organizou festas para apresentar a bebida. O Café Procope, em Paris, virou ponto de encontro de pensadores como Voltaire, Rousseau e Napoleão.
Da Raridade Botânica ao Cultivo Colonial
Com o café em alta, os países europeus logo quiseram cultivá-lo. A Holanda saiu na frente, plantando mudas no Jardim Botânico de Amsterdã, em 1616. Depois, começou a cultivar em Java e no Ceilão. A França também quis sua fatia: em 1715, uma muda foi levada ao Jardin des Plantes, em Paris, e depois enviada para a Ilha Bourbon (atual Reunião), onde prosperou.
Poucos anos depois, o oficial francês Gabriel de Clieu fez uma viagem épica, levando mudas até a ilha de Martinica. Enfrentou piratas, tempestades e até dividiu sua água potável com as plantas. Em 1726, colheu os primeiros grãos. Da Martinica, o café começou a se aproximar perigosamente… do Brasil.


As Primeiras Mudas no Brasil (1727)
Foi em 1727 que as primeiras mudas de café chegaram ao Brasil, vindas da Guiana Francesa. A viagem terminou em Belém do Pará, mas o clima amazônico não favoreceu o cultivo. Foi só ao chegar ao Sudeste — especialmente Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais — que os cafeeiros encontraram o ambiente ideal para crescer: solo fértil, clima ameno e chuvas regulares.
O Império e os Barões do Café
Durante o Império do Brasil, o café se transformou na principal força da economia. O grão chegou a figurar na própria bandeira imperial!
Para homenagear os grandes produtores, o imperador concedia títulos de “barões do café”, o que lhes conferia prestígio político e fortalecia a expansão das lavouras pelo interior.


Minas Gerais: O Ouro Verde das Montanhas
A partir de 1790, o café começou a ocupar espaço na Zona da Mata mineira. Com a decadência da mineração, a cultura do grão encontrou terreno fértil.
A abertura dos portos, com a chegada da Corte portuguesa em 1808, impulsionou ainda mais o comércio. Já em 1870, o café representava 60% da arrecadação estadual. Minas ganhava seu título de novo império verde.
Café: Símbolo de Hospitalidade
No Brasil, tomar café é um gesto de carinho e boas vindas. Em Minas não é diferente: oferecer uma xícara fumegante traduz hospitalidade, aproxima pessoas e fortalece tradições. Cada gole celebra encontros e gera memórias que atravessam gerações. Em muitos lares mineiros, o café vem acompanhado de quitandas caseiras – e o pão de queijo, feito com queijo Canastra, é a estrela do lanche. Sua casquinha crocante e miolo macio criam a dupla perfeita com o cafezinho, realçando o sabor e a tradição regional.


Belo Horizonte, Terra do Café
Capital de Minas, Belo Horizonte carrega com orgulho o título de “terra do café”. A cidade mistura tradição e inovação: de cafeterias clássicas aos espaços de cafés especiais, o que não falta é aroma bom no ar.
Ali, o grão mineiro brilha em preparos diversos, agradando aos mais variados gostos — do coado simples ao expresso mais encorpado.
Curadoria de Cafeterias em 2025
Em 2025, três jovens estudantes de Biblioteconomia da UFMG se reuniram em Belo Horizonte com um propósito em comum: mapear e valorizar as melhores cafeterias da capital. A curadoria destaca espaços que proporcionam experiências únicas, no qual cada visita é uma viagem sensorial — e cada xícara é uma memória marcante.

Referência bibliográfica:
MARTINS, Ana Luiza. História do café. 2. ed., 1. reimp. São Paulo: Contexto, 2017. 319 p. ISBN 978‑85‑7244‑377‑7
Patrícia Melo
13 de julho de 2025 em 10:59.
Excelente post!